SPMM - Síndrome da Pior Mãe do Mundo

Pois bem, este é o primeiro post do blog. Nele eu deveria/gostaria de falar sobre como ser mãe é maravilhoso, no quanto sonhei em viver isso, no quanto me tornei uma pessoa melhor depois de receber meu filho nos braços... É tudo verdade. A mater/pater nidade é cheia de coisas maravilhosas como as que citei, e ainda terei muitas oportunidades de comentar também sobre elas. Mas hoje não vou escrever sobre essas coisas. Porque hoje, na verdade ultimamente, eu ando com alguns sentimentos e pensamentos que não condizem com o que espera-se de uma boa mãe, e isso me enche de culpa. Tenho até medo da impressão que eu possa causar com o que vou escrever a seguir, por isso peço que só prossiga a leitura se estiver disposto a ler até o fim. Lembrando que essa é apenas a primeira parte de uma saga de não sei quantos posts sobre o assunto. Então esteja preparado para mais um ou dois posts até eu concluir meu raciocínio e tentar deixar alguma solução (pra mim principalmente, mas pra quem estiver no mesmo barco).

Queria eu ter começado a escrever enquanto ainda estava grávida, ou melhor, quando ainda estava tentando engravidar. Com certeza seria bem diferente, pois a visão que eu tinha - do que ainda nem tinha vivido - de fato era diferente. Eu estava com 18 anos, recém casada, louca pra ter um bebê.
Eu estava obstinada. 
Eu não sabia do lado B em ser mãe. 
O lado obscuro, aquele que os outros pais e mães (em especial as mães, por uma questão de ego) não te contam que existe. Tudo bem que às vezes eles não falam que é pra não assustar, e também pra não ser, sabe, a pessoa que destruiu toda a ilusão ideia de que ter um filho é sinônimo de felicidade constante pra vida inteira. Só que na maioria das vezes, além desses motivos, a questão é: medo de ser visto como um pai ou mãe ruim por deixar de enaltecer os prós (que são vários!!) e falar só um pouquinho sobre os contras (que também são vários!!) em aumentar a família. Como eu nunca fui de ser comum, lógico que vou falar justamente sobre as feridas abertas ganhas nessa jornada exaustiva, maravilhosa e que não tem volta.
Gente, eu AMO meu filho. Amo mais que tudo nessa vida. Não tem um minuto do dia ou da noite que eu deixe de amá-lo, ou o ame menos, pelo contrário! É um amor que cresce sempre, coração chega doer! Mas tem dias que não gosto é de ser mãe.
Eu diria que são momentos do dia, porque não é como se eu acordasse, me espreguiçasse e pensasse: "hoje eu vou odiar minha vida"; não é algo premeditado ou controlável. Eu estou lá, levando meu dia, me achando a melhor mãe do mundo. Tentando ser bastante lúdica nas brincadeiras, parando tudo o que estou fazendo sempre que ele precisa de mim, deixando ele fazer coisas que outras mães (como a minha, ou a do meu marido) teriam um troço se vissem, como: mexer nas minhas panelas e outros utensílios domésticos (inofensivos, ok?!), espalhar todos os brinquedos pela casa, tirar as coisas das gavetas, essas coisas de criança. Depois faço ele me ajudar a arrumar, claro. Mas enfim, eu tô lá achando que poxa, eu tô indo bem, ele vai me achar uma mãe foda incrível quando estiver maior. Ele vai lembrar de como sou atenciosa, carinhosa... Mas aí tem uma hora que eu saio do sério.

Tenho ciência de que o problema tá todo comigo. Não é nada com meu filho, eu sei disso. Ele não é nenhum santo (a carinha de sapeca não me deixa mentir, e se fosse só a carinha rsrs...), mas quero dizer que não é algo sobre seu temperamento, seu comportamento, características de sua personalidade. Ele não é nem nunca foi um bebê difícil de lidar, do tipo nooossa que bebê exigente, um bebê que não come direito, que está sempre doentinho, que faz birra pra tudo. Agora com 1 ano e 7 meses está mais teimoso, quer fazer as coisas sozinho e se irrita quando não pode ou não consegue, porém na maior parte das vezes se distrai fácil da situação.
Outras vezes, o bicho pega.
Não sou especialista pra dizer, mas acho que nessa idade ele já não faz mais as coisas pra ver nossa reação. Quer dizer, tem coisa que ele faz com a intenção de que vejamos, mas já não é mais questão dele querer saber o que vai acontecer, como quando ele era mais novo e ainda estava descobrindo tudo. Ele sabe que fazer coisas como mexer no computador, nos cabos, ficar desligando e ligando a tv, derramar a água do cachorro, mexer no varal, mexer no armário de produtos de limpeza, etc vai deixar a mamãe diferente. Vai deixar a mamãe brava, triste, gritando pelos cantos. Ele sabe que não vai ser legal fazer aquilo. E faz mesmo assim.
Tem dia que o estresse é pra comer. Pede "papá, papá", beleza, tô fazendo o papá, ele fica atrás, "papá, papá", "qué papá". Eu falo "filho, vai brincar lá no quarto pra mamãe terminar nossa comida, vai". Ele vai. Mas logo chora e está atrás de mim de novo, querendo atenção. Assim vou indo até que consigo terminar de cozinhar. Ora pegando ele no colo, ora distraindo com alguma coisa. Enquanto monto nosso prato, só o que eu penso é "consegui, graçazadeus". Chega a hora dele comer, acho que vai comer tudo, talvez até repetir... Hahahah ILUDIDA. Acaba que ele quer só a "cáini", ou só o chuchu e a cenoura. Tenho que ficar negociando pra que ele coma pelo menos um pouquinho das outras coisas do prato. Enfim, está ficando meio seletivo pra comer, e eu fico meio triste porque morria de orgulho dele comer de tudo, sem frescura. E me sentindo "desvalorizada" também, por correr contra o tempo pra fazer a comida, me preocupar em ter tudo o que ele precisa no prato, e ele não comer direito. Pode ser uma fase? Os dentes? Pico de crescimento? Chacras desalinhados? Não sei. Só sei que me irrito quando preparo algo que ele gosta, e de repente não gosta mais. Tipo o chuchu e a cenoura. Num dia ele só queria comer isso. Uns dias depois fiz de novo com o maior gosto do mundo e ele comeu uma colherada e não quis mais. O pior é que ele não diz que não quer. Se fosse assim, eu ainda me sentiria triste por ele não comer mas me conformaria e ofereceria outras coisas do prato. Só que ele aceita, só pra depois pôr pra fora. Não tá nem aí. Põe a língua pra fora e se desfaz da comida.  Pede um iogurte e só come umas duas ou três colheradas. Não quer mais. Quando acontece uma ou outra vez, eu não me estresso. Mas se é um dia que acontece no café da manhã, no almoço, eu nem tenho ânimo de fazer uma janta elaborada e levar mais um baile.
Tem dia que não deixa eu cortar a unha, limpar o nariz. Tem dia que não coopera nas trocas de fralda e de roupa. Tem dia que não pode ver a escova de dente que faz o maior show. Normal, né? Mas tem dias que além de todas essas pequenas coisas que aos poucos nos irritam, mas que devem ser feitas, parece que ele quer me desafiar o tempo todo. Não se distrai com nada. Só faz o que não pode. Você pode ser a pessoa mais paciente do mundo, mas uma hora dá no saco. Depois de muitos "não, aí faz dodói", "não, esse não é de brincar", "não, esse quebra", depois de muito tentar ser didática, praticar a disciplina positiva, falar calmamente, explicar, negociar, distrair... Ah mermão, depois disso tudo qualquer ser humano vira uma bomba relógio.
Então, em alguns momentos, eu explodo.

Quando vejo já estou aos berros, fazendo as coisas de modo ríspido, bufando. Quando vejo já dei um tapa. Quando vejo ele está chorando ainda mais do que antes, totalmente sentido, me olhando como se eu fosse uma monstra, chamando papai. E a culpa já está ali, gigantesca, me fazendo tremer com um nó cego na garganta e vontade de sumir. Me afasto - sabendo que ele está seguro - pra não continuar a loucura. Pra que essa brecha no meu controle emocional não deixe escapar todas as minhas raivas e frustrações que nada tem a ver com a situação em si. Conto até 10, 100, 1000. E choro. Choro muuuuuito. Aí ele, que a essa altura já tinha parado de chorar, se distraído com a tv ou com algum brinquedinho, vem vindo de mansinho pra perto de mim. Ainda com medo. E eu choro muito mais, sob seu olhar assustado e ao mesmo tempo preocupado comigo. Por me sentir incapaz de ter autocontrole, de ser uma boa mãe. Pra ser o mais clara possível, me sinto um pedaço de merda. Sinto pena do meu filho por ter nascido de mim, sinto pena por ele ter que conviver comigo e ser a principal vítima de explosões como essas. Nessas horas, por mim, o mundo podia acabar.
Mas não acaba.
Nunca, em nenhuma das vezes. O mundo continua girando, me dando todo dia uma nova chance de tentar ser melhor. A coisa ainda tá toda revirada pra eu lidar.
E me dou conta que meu filho está ali, se recuperando da situação assim como eu. E se recupera bem mais rápido. Logo está brincando de novo, querendo me mostrar suas coisas, fazendo gracinhas, sorrindo. Mesmo com umas lágrimas ainda em seu rosto. Partindo meu coração ainda mais, por ver sua inocência contrastando com minha atitude tão horrível. Vou mergulhando cada vez mais na culpa, até que meu rosto está adormecido de tanto chorar, não saem mais lágrimas, mas ainda me sinto o pior dos seres. Me sinto mal só de respirar.
Vou aos poucos retomando minhas atividades, num estado meio zumbi. Sinto vergonha em olhar meu filho nos olhos, fico sem jeito. "Como pode ele ainda me querer por perto?", é o que eu penso. Enquanto observo ele brincar, parecendo já ter se esquecido da coisa toda, sorrindo pra mim, querendo colo, novamente rompo em lágrimas e abraço, beijo, abraço, peço desculpa, falo coisas como "mamãe ficou brava mas não queria", "a mamãe não vai mais fazer assim, viu?" e beijo mais um montão.

Esses episódios raramente aconteciam há alguns meses atrás, mas nas últimas semanas, se tornaram frequentes. Do tipo quase todo dia. Como eu disse antes, o meu filho sempre foi um bebê muito bonzinho, continua sendo, mas está chegando aos terrible two e mesmo a criança mais amável da Terra passa por algumas mudanças nessa faixa etária (adolescência do bebê, imagine!), e eu não estou sabendo lidar com elas. Vivo atribulada entre afazeres domésticos, cuidar do filho, cuidar do marido, cuidar do cachorro, pagar contas, tentar lembrar de mim... Penso no passado, penso no futuro, e não consigo me conectar com o presente. Sinto minha sanidade mental se esvaindo, sinto meus nervos se desmanchando (sim, chega a ser uma sensação física). Às vezes só o que eu queria era que alguém me dissesse que sou uma ótima mãe, que me dedico, que apesar de aos trancos e barrancos eu faço minha família muito feliz. Mas parece que eu faço tudo e ao mesmo tempo não faço nada. Tem noite que eu já fico frustrada pelo dia que ainda nem raiou. Por saber que não vou dar conta, mais uma vez. Alguma coisa vai ficar pra trás.
Eu sei que essa mãe cansada e estressada que eu sou só existe porque quero sempre me superar pela minha família, porque quero que meu filho seja feliz, porque quero estar presente em todos os momentos da vida dele fazendo com que tudo corra bem. Mesmo sabendo que nada nem ninguém é perfeito 100% do tempo, me mato pra ter uma sensação parecida com essa, a sensação de realização, sabe? Realização minha, da minha família. O que acontece enfim, é que me desgasto tanto em ser a melhor mãe que acabo perdendo o prazer em ser simplesmente, suficientemente, apenas uma mãe. E a única sensação proporcionada por isso é a de absoluto fracasso, porque no fim das contas não me vejo como uma mãe perfeita, nem como uma ótima ou boa mãe, nem como uma mãe ao menos suficiente. Me sinto a pior mãe do mundo.

Continua...




Comentários